A perda do amor
Dra. Cíntia Maria Lane Travassos

Na natureza, a perda é um elemento essencial da criação (o dia começa, a noite se perde) e sempre precede uma aquisição. Existem diferentes tipos de perdas para o homem: perdas óbvias, como a morte e a separação; perdas não tão óbvias, como a de um ideal de sonhos de ilusões; perdas inevitáveis; perdas temporárias, miniperdas.
Quanto à separação pertencente ao item das perdas óbvias, tem-se muito a dizer: a separação, ao contrário do que se pensa, não é uma consequência da perda do amor, pois o amor não se perde. A separação é consequência – da perda do amor do outro, pelo outro ou de si mesmo; da conscientização de que aquele amor nunca existiu; do medo de perder o amor; de imposições sociais e/ou morais (caso de amantes cujo relacionamento já estava fadado a terminar); ou, também, do rompimento da simbiose, o que leva os parceiros a perderem a função no vínculo patológico quando esse era o único vínculo do relacionamento.
Quando somente um parceiro deseja a separação, ele pode atuar ativa ou passivamente. Sendo passivo, o indivíduo arranja formas de não assumir a responsabilidade pela separação, alegando motivos socialmente aceitos. Ele cria fantasias de morte, acidente, traição ou procura encontrar alguém antes de separar-se para não ficar só e, inclusive, provoca o parceiro para que este tome a iniciativa e/ou a decisão.
Segundo Igor Caruso, a separação é um problema de morte entre os vivos – para sobreviver se provoca a morte da consciência de um ser vivo dentro de outro ser vivo. Devido a isso, revivem-se sentimentos de perda, inibição, frustração e luto, e pode ocorrer como mecanismo de defesa (agressividade, fuga pelo trabalho, idealização ou desvalorização do outro), transformação do amor em ódio ou indiferença, aumento do impulso sexual para reafirmar a insegurança e o medo da solidão ou a diminuição do impulso sexual chegando até a inibição.
A recuperação da separação leva de seis meses a dois anos e supõe três fases:
- Despedida: é preciso fechar a Gestalt, fazer o ritual da separação, aceitar a perda da relação enquanto casal. Torna-se importante sentir a dor sem se castigar e sem fugir dela. Dá-se a cura quando se respeita o tempo de recuperação física e emocional, pois toda a perda implica um ferimento emocional, necessitando de cuidados como num ferimento físico.
- Reconstrução de si mesmo: é a capacidade de poder perdoar a si e ao outro, avaliar as coisas boas que o relacionamento trouxe e que ficam com cada uma das pessoas e conquistar a liberdade de escolher alguém não mais para preencher o vazio.
- Enfrentar o medo de amar novamente: libertar-se de experiências passadas negativas e após ter passado para uma fase de reconstrução sentir que não vai desmoronar tudo novamente. Saber que um novo amor é possível.
Encontrar o amor até pode ser uma sorte, cultivá-lo implica arte, sabedoria e capacidade.

Dra. Cíntia Maria Lane Travassos
(CRP 06/1283) é psicóloga e pedagoga, com formação na Abordagem Junguiana. Psicoterapeuta de adultos
(individual e casal). Tel. 11-4521-7722